domingo, 19 de maio de 2013

Felicidade – o sentimento que não tem que morrer

Acabo de entrar em casa e vim no taxi com uma sensação de prazer e felicidade tão grandes, que me remeteram a uma época onde eu sentia isso todos os dias! A sensação era a mesma!
Passei o sábado todo na minha segunda aula de AutoCad. Semana passada começou o curso – anotei tudo, penei para acompanhar o professor, mas achei que chegando em casa conseguiria, com calma, fazer todos os desenhos aprendidos. Que nada! 
Terça-feira, depois de um almoço delicioso no Rio-Sul com a Lucy, que me acompanhou à consulta de rotina com o Mauro Zukin, me agarrei ao computador, mas não consegui fazer uma linha, um retângulo nem mesmo um círculo – o be-a-bá do Autocad.
Tentei dois dias seguidos e resolvi pedir um help ao meu professor. Liguei para o curso e ele topou me dar uma aula particular – e veio direto. Passamos duas horas aqui, mas aprendi. Pelo menos consegui reproduzir a primeira lição.
Eu adoro aprender! E como o assunto sai da minha rotina dos últimos 40 anos, a vida na Fisioterapia, parece que há estímulos em áreas diferentes – devo fazer novas sinapses, meu cérebro trabalha diferente e talvez isso traga a sensação maravilhosa de ver além, conhecer o desconhecido, ter que pensar, já não é nada automático.
***
Dormi muito mal essa noite. Como ontem foi dia de quimioterapia e tomo uns remédios que me deixam pilhada, como já contei, à noite não me desligo, fico horas acordada e pensando em coisas que no dia seguinte não terão a menor importância, mas que de madrugada tornam-se um vulto difícil de domar.
Sei que até segunda de manhã ficarei acesa, mas que depois apago por uns dias – antes do final da semana que vem volto a arribar.
Além dessa noite agitada, acordei com uma diarreia daquelas e fiquei até receosa de sair, mas não perderia minha aulinha de jeito algum! Resolvi arriscar. Deu certo, só teve um episódio de corrida ao banheiro, mas deu para administrar e não passar vergonha.
Pensei que não fosse aguentar o dia todo, mas o tempo voou e quando a aula acabou nem queria ir embora – fui porque todo mundo se levantou e não tenho intimidade para pedir para fechar o curso, mas adoraria ser a última a sair e apagar a luz!
No taxi, me vieram essas lembranças de sensações deliciosas. Houve uma época em que fazia atividades “extracurriculares” todos os dias. Tinha terapia num dia, duas aulas de dança em outros, um baile na Estudantina às quintas-feiras, o qual não perdia nem com temporal, tsunami ou dor de barriga. Aos domingos, frequentava dois bailes: à tarde no Clube Internacional, ao lado do aeroporto Santos Dumont, e depois de lanchar, escovar os dentes e renovar o desodorante, ia direto para o Circo Voador. Dançava com a Orquestra Tabajara da primeira à última música, aliás, como todo meu grupo de amigos. Divertíamo-nos muito dançando o domingo inteiro.
Às quartas-feiras à noite, participava de um grupo de formação em psicodrama pedagógico, que foi de vital importância para meu trabalho – entender como lidar melhor com gente, separar o que é nosso do que pertence ao outro, aprender a ler os sinais, compreender o que é dito nos gestos, nas entrelinhas, e nas dinâmicas grupais. Adorava! O curso durou dois anos e meio e quando terminou me inscrevi no seguinte. Como a turma era diferente, as dinâmicas nunca eram iguais. Quem lida com gente deveria participar de um grupo assim, passar pela experiência, que foi das mais ricas que vivi, uma das melhores coisas que fiz para mim, meus clientes e meu trabalho.
As aulas de dança aconteciam na clínica, que naquela época era uma sala confortável na Rua Soriano de Souza, onde fazíamos a aula toda de meias – era proibido pisar de sapatos naquele chão sagrado onde os clientes se deitavam para fazer Antiginástica. Como eram todos clientes que viraram amigos, a aula era animadíssima, a gente ria, dançava e se divertia muito! Depois das aulas dos sábados, íamos direto tomar um chopp bem pertinho, que entrava pela noite e a conversa continuava animada!
Era uma saída da rotina diária, mas a rotina semanal não mudava. Eu me lembro até de falar na terapia que sentia certa culpa por receber dinheiro pelo meu trabalho, que era uma das atividades mais prazerosas do dia, e de me sentir tão feliz todos os dias! Olhando em volta, aquilo não era o normal.
Eu era solteira, independente, não tinha filhos e morava sozinha. A vida era muito leve!
Lógico que vivi coisas maravilhosas em outras épocas, mas essa foi muito marcante e durou bastante, “para noooooossa alegria”!
Olhando para trás vejo que minha vida pode ser dividida em etapas, em capítulos que foram vividos intensamente, me trazendo sempre o sentimento de felicidade. Eu buscava isso, busco ainda. Era muito “infeliz” quando não conseguia realizar esse projeto. Lógico que houve períodos assim, de dor, mas a busca continuava ali. Podia até demorar, ser difícil, mas nunca desistia de ser feliz.
Quando Pedro era pequeno, entre os dois e dez anos, estudou na Escola Lume, no Grajaú, onde fez amigos que se veem até hoje, assim como nós, os pais, que criamos vínculos afetivos que alimentamos nos encontrando (menos do que o desejado), tendo notícias uns dos outros, trocando e-mails, não nos esquecendo.
Um dia conto da nossa amizade, desse amor que conseguimos manter apesar das “crianças” terem crescido, se encontrarem sem nós, mas nos tornamos independentes deles e hoje marcamos nossos encontros sem os filhos – encontro de pais! 
***
Há dois dias me sentei para escrever sobre minha conversa com a Lucy, minha guru-espiritual, meu passaporte para entender o além, mas tive tanta coisa para deixar pronta, preparando-me para meu retiro forçado pós-químio, que não terminei.
Ela me escreveu e disse:
... você está misturando duas coisas: ansiedade e fé. Tenho a impressão de que na medida em que pede alguma coisa e a resposta não é imediata, ou se é, não vem na intensidade que gostaria, ou esperava, você passa a achar que não teve fé suficiente.
Pode ser até que, consciente ou inconscientemente, você  se sinta punida por achar que não tem fé. Mais ou menos assim: "eu não melhorei” ou “a doença reapareceu porque eu não tenho fé". Apague essa ideia, isso é ansiedade, não é falta de fé.
Pelo que temos conversado você é uma pessoa de fé, só não está conseguindo percebê-la como tal, exatamente por estar misturando as coisas.

Fiquei muito aliviada em perceber que ela tinha razão, não TENHO que crer piamente em alguma coisa que nem sei o que é. Tenho que acreditar muito é na minha própria percepção do que pode me fazer bem e assim procurar coisas prazerosas que me farão viver muito ainda!
Na verdade, acredito em alguma coisa além daqui e vou reservar um dia para contar minha trajetória nesse mundo espiritual - minhas buscas, crenças e desilusões, encontros e desencontros. Vou até contar de um ex-noivo que levei para um encontro de jovens do Colégio São Bento e que acabou virando Pai-de-Santo. Mas essa é outra história...

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Almoço surreal

Há dois dias, vivi uma experiência inusitada. Angela S., Carminha, Valmir e eu fomos almoçar no Quinta, em Vargem Grande, onde há muitos anos não íamos, apesar de sempre pretendermos, cada vez que Angela vinha ao Rio.

Foi um almoço surreal! Chegamos às 13:30 e só saímos às 23:30h! Durou 10 horas!

Lá pelas seis da tarde, o Luiz Antônio, dono do local, sentou-se conosco para aqueles papos descompromissados e sempre bem-vindos. Fátima, sua esposa, sentou-se uma meia hora depois; os últimos clientes se foram, a equipe foi dispensada e nós seis ficamos numa conversa até muito tarde, onde houve de tudo!

Sinceramente não sei descrever os detalhes, mas fiquei com a sensação de ter participado de um momento único, especial e, principalmente, inesperado.

Ainda não havia processado tudo, como preciso para escrever aqui, mas hoje recebi mensagens da Angela e do Valmir que repasso para que me ajudem a explicar o acontecido.



Queridos,

Fiz ótima viagem de retorno, dominada pela lembrança de nosso almoço de ontem, no Quinta. Fiz meus cálculos e creio que lá estive pela primeira vez na companhia da Bia e do Luiz, há vinte anos!

De início encontrávamos apenas o Luiz Antônio, sempre atento. Calor e carinho transparecendo em sua fineza, educação, pequenas gentilezas como uma sobremesa ou uma garrafa de vinho que não eram cobradas, ou uma muda de bromélia que levei para Piracaia.

Sempre tínhamos direito a um papo mais pessoal. Acompanhamos a convalescença do pai, o famoso Lulu, que havia sofrido um primeiro enfarto ou AVC, não lembro exatamente; a mudança dele para a região da Ilha Grande; o desaparecimento da estufa de bromélias com o crescimento do negócio.

Fátima apareceu anos depois quando o restaurante parecia estar grande o bastante para demandar uma administração mais pesada. Ao menos foi essa a impressão que tive. Daí foi um prazer encontrar uma mulher igualmente educada, exuberante, com a aura de sua ascendência de beleza e cultura que Cecília Meireles lhe confere – é sua neta.

Ela sempre lembra de algo que falamos ou fizemos. Desta vez, depois de tanto tempo longe, fiquei atônita dela lembrar que mandei uma caixa de lichias do sítio depois deles nos terem oferecido um licor de lichia que eu adorei. Isso faz no mínimo doze anos.

Assim, o encontro tal qual ocorreu ontem me é absolutamente surpreendente.

Depois de vinte anos de contatos intermitentes, de repente um lorde inglês se confessa sensitivo, faz demonstração de forças mentais uriguelianas. A mulher faz mágicas, nos oferecem, mas, sobretudo, bebem eles mesmos, umas três garrafas de vinho branco depois do serviço do restaurante ter se encerrado.

Aceleraram muito o raciocínio, emendaram um assunto no outro, mas ele se preocupou em nos colocar em pauta fazendo a leitura de nossos inconscientes.

Ela fala sobre o encontro caloroso de Carminha e Mayse, tão logo chegamos ao local; ele traz boas notícias sobre a evolução do tratamento da Bia; ela faz mágicas para nos entreter; ele elogia o grande coração que Valmir seguramente tem; ela me agradece mais de uma vez nossa presença naquela noite, ele acende um charuto (que por sinal devia ser de excelente qualidade devido à absoluta ausência de odor forte) me fazendo lembrar a descida de um espírito de pai de santo no corpo dinamarquês daquela criatura!

Não pude deixar de perguntar a ele a que se devia sua nova fase sensitiva da qual ele nunca havia falado. A resposta foi de que agora se sentia mais seguro e centrado em si mesmo, para se colocar. A mim declarou que me via como uma pessoa linda e forte, "uma fortaleza", mas por que eu ainda me sentia tão insegura em relação a mim mesma?

Claro que imaginei que Valmir me diria que essa é uma observação genérica que se aplica a todo mundo em algum momento da vida. Seguramente é fato. Mas reconheço que em alguns momentos da minha vida essa observação não encontraria nenhum eco dentro de mim. Houve momentos em que eu diria que ele estava alto e pronto. Mas nesse momento isso é absolutamente verdadeiro. Já usei varias vezes esse mesmo adjetivo em relação a mim mesma nos últimos cinco anos... Coincidência?

De qualquer forma no meio dessa surpresa e bebedeira toda tive a sensação de acolhimento.

Beijo e obrigada pelo final de semana para o qual todos vocês colaboraram.
Angela


Angela, Bia e Carminha,
Também passamos o dia com a ótima sensação do que passamos ontem. Nem saímos de casa. Acho que estávamos alimentados pela felicidade que desfrutamos ontem. Foi um dia muito especial. Ficava o tempo todo pensando como isso aconteceu, como passamos 10 horas lá. Sei lá, fomos todos tocados por alguma coisa. Aconteceu uma sinergia.
Que venham outras.
Beijos,
Valmir


Nem que quisesse saberia reproduzir com detalhes nossa tarde no Quinta, mas ficaram registros fora de ordem, alguns incompreendidos, mas vou tentar refazer o caminho.

Olhando em retrospectiva acho que o Luiz Antônio e a Fátima foram contando coisas pessoais como introdução ao que viria depois, como as leituras sensitivas de cada um. Eles pareciam estar jogando entre eles, com uma vida juntos na qual as conversas viram um jogo e se completam com a fala do outro para seguir até o rumo desejado.

Eles alternaram mágica com o que a Angela chamou de demonstração sensitiva, onde o Luiz Antônio entortou um garfo sem a menor demonstração de esforço.

Enveredamos por fé e de repente virei o alvo. Ele falou coisas bonitas e me disse para agradecer muito, mas muito. Eu estava curada.

Foi uma emoção muito grande ouvir aquelas palavras, independente de acreditar ou não, e mesmo sabendo que não tem cura, crer que posso ficar anos sem que o câncer evolua é o que preciso, um grande presente!

Fiquei, realmente, muito emocionada e foi geral.

Quando consegui falar contei que aquele momento estava coroando minha semana, onde havia tomado algumas decisões.

Na quarta-feira passada entrei na igreja de Santo Afonso, aqui ao lado, e fiquei pensando, pedindo para ter mais fé do que tenho e tentando me lembrar onde foi que deixei de sentir aquela felicidade que não faz muito tempo se diluiu um pouco.

Foi quando deixei a faculdade de Design de Interiores, época em que sentia uma alegria e um prazer enormes tanto na escola, com pessoas que passaram a ser muito especiais, quanto em casa, projetando, criando e aprendendo.

Isso foi interrompido bruscamente, quando tive que dobrar a carga horária do curso que ministrava fazia seis anos, por uma decisão do CREFITO, o conselho da minha classe. Foi uma época de muito estresse, montando várias apostilas novas com textos, fotos, mil detalhes que fiz questão de incluir na programação enriquecendo o conteúdo, mas foi um período bem doloroso.

Ainda sentada na igreja repassei essa época e decidi na hora retomar esse estudo. Não dá mais para voltar à faculdade - o tempo é outro, os colegas não serão os mesmos, mas posso estudar! Em casa pesquisei e me inscrevi em um curso de AutoCAD, aos sábados. Pelo menos colocarei as idéias no computador e não na prancheta, demorando uma vida em cada uma!

Outras decisões: preciso me encontrar mais com os amigos. Quero montar uma Confraria! Encontros marcados para conversas, discussões sobre filmes, livros – que adoro! Ah! E com refeição incluída em restaurantes a serem descobertos.

Aliás, isso foi idéia roubada do Luiz Antônio, que nos contou sobre a viagem que fez à África do Sul, no carnaval, com sua confraria! Também quero uma para chamar de minha!

Hoje a Lucy R. me levou para o COI, para a injeção da barriga, e conversamos muito sobre o que houve no sábado, eu sem entender bem o que aconteceu, apesar de estar completamente mexida com a história. Ela me disse para não tentar entender, que talvez nem conseguisse. Se me fez bem e me trouxe um bom sentimento, que ficasse com isso. Não preciso entender.

Desse sábado me ficaram muitas emoções, afetos, surpresas e um garfo torto, que será um amuleto na minha corrida em direção à alegria e à vida. 
 

 


Acabo de escrever sobre o almoço surreal e me lembrei que havia feito um relato de outra experiência “espiritual” há três semanas que não consegui postar. Segue o texto escrito e guardado. Fui atrás de alguma coisa e levei um susto.

Fui almoçar com amigos e voltei com a sensação de ter encontrado algo muito importante que não sei o que é, mas do qual precisava muito. Além do garfo torto.


Segue o texto escrito em 17 de abril.


Experiência espiritual – será?

Faz tanto tempo que não escrevo que nem sei por onde começar. Meu computador foi uma das vítimas da atualização catastrófica que a Microsoft realizou semana passada e pensei que ele tivesse morrido de vez. Felizmente a Tânia, minha administradora preferida, o ressuscitou ontem. E com ele, eu voltei.

Pedro, através de uma amiga, foi a um centro que imaginei que fosse espírita, mas depois que o conheci, tenho cá minhas dúvidas.

Ele falava de um homem com grande poder de cura e queria que eu fosse me submeter a um tratamento de quatro semanas. Relutei, mas ele me pediu que fosse por ele, mesmo que não acreditasse.

Sábado passado embicamos para a baixada fluminense e passamos boa parte da tarde no local, que se destacava do entorno com muito verde, muitas árvores no terreno do que acho que é um sítio.

Na hora fiquei muito calma e pensei que já que estava lá seria para levar fé e me entregar. Acho que se acreditarmos que alguma coisa ou pessoa possa nos fazer bem, funciona, vira verdade. Nossas freqüências entram em sintonia e o corpo reage positivamente.

Participei de algumas sessões que não sei dizer do quê, mas por três vezes, em diferentes grupos - que variaram de seis a umas oitenta pessoas – fui colocada no centro, pediram para eu fechar os olhos, alguém “apresentava meu caso” e pedia para que os presentes fizessem alguma coisa que não entendia o que era. E todos em volta começavam a gritar, a chorar e a expressar tanta dor que nem sei como conseguia continuar sem olhar. Concentrei minha atenção na respiração.

A um pedido do guia faziam silêncio ao mesmo tempo e como eu continuava com os olhos fechados, me tocavam o braço dizendo que acabara. O semblante de todos eles era tão tranqüilo que não combinava com o que eu imaginava ter acontecido. O que eu tinha acabado de ouvir não tinha nada a ver com o que via antes ou depois de fechar os olhos.

O homem da cura, o anfitrião, era, indiscutivelmente, o responsável por tudo. Era chamado a toda hora para socorrer um ou outro. Ele era gentil, educado e bastante atencioso, diferente de quando, no início, fazia o que chamou de palestra, onde respondia a perguntas, dava conselhos e orientações de um jeito que achei muito preconceituoso e de uma maneira bastante grosseria.

Não falava de amor, de bons sentimentos – amor é obrigação. O que vai contar na nossa “conta-corrente espiritual” são as coisas negativas, as que nos levam a um umbral cada vez pior. Juro que foi isso que entendi.

À noite não dormi e fiquei vários dias pensando na experiência, recapitulando cada minuto do que havia acontecido.

Quanto mais eu pensava mais angustiada ficava e decidida a não voltar e querendo que Pedro também não voltasse.

Sei do empenho dele em me salvar, em querer que algo interrompa a evolução da doença, mas quero lhe mostrar outros lugares, ligares do bem onde o sentimento reinante é o amor e não o ódio.

Algum lugar ou alguém eu devo encontrar para que me traga essa ajuda espiritual tão aguardada.





segunda-feira, 8 de abril de 2013

Família e amigos

Na sexta-feira fiz outra químio.

Diferente das outras, vim para casa sem querer me deitar no carro e nem colocar os pés no painel – vim sentada! Já achei melhor e gostei muito.

Vim conversando com a Dê até em casa, almoçamos aqui e ela saiu correndo para o trabalho. Grande irmã!

Nesse dia passei a tarde no computador pagando contas, pesquisando material para a obra e agendando visitas de profissionais para semana que vem fazerem orçamento de carpintaria e mármores. Vai ficar lindo o apartamento!

Às cinco horas saí para lanchar na minha mãe, onde agora Marcello, Aíla e o Fernando - meu irmão, cunhada e sobrinho, também moram, na Garibaldi, que existe desde os meus dois anos de idade.

Denise chegou logo depois, assim como Pedro. Esses encontros não marcados com antecedência são sempre bons, apesar de terem sido diferentes dos de sempre, que costumam acontecer em fins de semana.

Estavam quase todos cansados – também, sexta-feira, final da jornada semanal, era de se esperar.

Minha mãe e a Valda, empregada na casa deles, têm sido um capítulo à parte. Ela trabalhava na casa do Marcello e da Aíla e veio junto com a mudança. É engraçado como as dinâmicas surgem de uma maneira inesperada. Valda está fazendo minha mãe se mexer mais. Não deixa que ela durma muito de dia, estimula uma ida ao jornaleiro e ao entorno e o faz com tanta naturalidade - e certa autoridade – que os resultados têm sido muito melhores que os que conseguimos até hoje.

Minha mãe nos disse que está caminhando! Denise e eu já pensamos que fosse ao redor da pracinha Xavier de Brito, o calçadão do Tijucano, mas que nada! Ela se referia à ida até a jornaleira amiga e à feira em frente de casa. Tudo bem, isso pode ser apenas o começo de uma carreira promissora de maratonista – vamos torcer.

No sábado fiquei desligada da tomada. Depois da injeção na barriga, que tomei no COI, só quis saber de cama. Por sorte, o livro que estou lendo me fez passar o resto do dia deitada e distraída, de tão bom - “O leão da Toscana”.

Hoje acordei melhor e do jeito que estava me sentindo sabia que passaria um dia bem, com energia.

Fui cedinho para a Barra da Tijuca para ir ao COI, com direito a engarrafamento neste domingo sem sol, na ida e na volta. Ninguém merece.

Da lá fui me encontrar com meus compadres Fátima e Zezinho, que estavam com o Zé Prado, amigo de São Paulo, no forte do Leme. Os meninos subiram a pedra até aquela bandeira fincada no topo e vislumbraram a paisagem de 360º - Copacabana, Praia Vermelha, Niterói e aquele mar fazendo a ligação entre eles.

Nós, meninas, ficamos conversando sentadas em um banco e na sombra. Subida? Nem pensar!

Já era hora do almoço e meu filho me chamou para almoçar na casa da avó Zilah. O almoço virou lanche, que virou jantar e o papo correu fácil, alegre e leve – como sempre.

A melhor coisa da vida é estar com as pessoas queridas e próximas.

Encontros assim fortalecem, animam, confortam, alegram e deviam ser obrigatórios - são a vitamina e o suplemento alimentar do corpo e da alma – e isso é saúde!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Hoje estou com medo

Tenho andado tão bem, com tanta energia, me sentindo forte e saudável que não escrevo. Faço mil coisas tentando colocar em dia a vida que fica meio em adiada quando estou o oposto - cansada, mole e cheia de químio correndo por dentro.

Pedro me cobra a atualização do blog, mas não me obrigo, deixo a vontade surgir de dentro. Minha prima lindona, Lúcia, ontem me ligou para saber do sumiço e sugeriu que escrevesse exatamente isso – não tenho o que dizer.

Pois hoje de manhã me deparei com a notícia que o Alberto, marido da Sônia, cliente do Núcleo, faleceu em fevereiro com câncer de pulmão.

Ele adoeceu depois de mim, acompanhamos a evolução um do outro na maior torcida, também tomou o Tarceva e o último exame dele do qual tive notícias, estava tudo bem.

Quando vi e Sônia hoje e perguntei por ele, como fazia nos últimos anos, ela me olhou com uma expressão de tanta dor que fique paralisada. Não entendi imediatamente, mas com muita dificuldade ela disse: -“Ele se foi”. Eu levei um susto tão grande que só consegui lhe dar um abraço forte e ficamos assim por uns instantes - caladas e abraçadas.

Ele teve metástase cerebral.

Descobri que minha equipe sabia, mas fui poupada. Fiquei muito triste e com a tristeza veio o medo. Parece que a energia começa a se esvair aos poucos.

Até hoje, quando ouço uma notícia na televisão que fulano faleceu de câncer de... na hora tampo os ouvidos e solto um AHHHHHHHHHHH bem alto para não ouvir de quê. Não quero saber! Impossível não me envolver, não fazer as contas de quanto tempo levou a doença dele ou dela e de me colocar em seu lugar. Prefiro a ignorância.

Sei que não ouvir não muda o meu estado, mas evita que os pensamentos macabros me invadam. Enterro a cabeça mesmo.

Pode parecer estranho, mas tem muita gente que quando me encontra começa a contar um caso de algum parente, amigo ou conhecido que teve ou tem “a mesma coisa que você”. Não deixo nem que acabem e peço que mudem de assunto. Digo que SÓ QUERO SABER O QUE PODE DAR CERTO!

O pior é que existem os sem noção que insistem no caso, o que me obriga a pedir em português claro que não continuem, apesar de saber que falam com a melhor das intenções. Sinto muito, sei que é indelicado, mas obrigar alguém a uma escuta indesejada é cruel, mesmo que sem querer.

Não tenho o menor problema de falar do meu câncer, que conheço bem, sei como vem se comportando e o sinto íntimo e domesticado. Mas os que falam dos alheios não percebem a maldade embutida, uma necessidade pessoal. O pior é que, tenho certeza, é sempre com o intuito de ajudar!

Agradeço antecipadamente, mas dispenso.

Ainda no Núcleo estava conversando com a Tânia Salgueiro, minha administradora preferida, e pedi que me avisassem se eu começar a fazer ou falar coisas estranhas ou sem sentido. Ela me olhou séria e respondeu que na hora em que eu começar a terminar as frases ou a resolver um problema de cada vez e com calma, aí sim, será preocupante... e caiu na gargalhada.

De lá fui à loja de material de construção e à livraria Saraiva de carro. Obriguei meu corpo que já estava cansadíssimo. Vim para casa, almocei e me larguei no sofá. Foi quando reconheci o sentimento de angústia, o que vem com o medo da morte e de ver a doença evoluir.

Sei que não fico assim muito tempo e que sempre arranjo um jeito de driblar a dor e de me livrar do aperto no peito.

O que não queria é que este espaço fosse de lamento, de baixo-astral, mas que bom que existe! Só de estar sentada aqui tentando entender a dor e escrevendo já me sinto mais leve e aliviada. Vá entender a cabeça e o coração!

Quando eu sumir por alguns dias é porque estou “vivendo para fora”, num estado de fazer, realizar, encontrar e estar com gente querida – e muito feliz!

terça-feira, 19 de março de 2013

Vale-Freud na cesta básica

Não posso mesmo pensar que aguento o tranco. Hoje pifei. Acordei muito cansada, dirigi até o Rio-Sul, fiz a injeção e quando voltei só queria minha cama. Dormi até 17h.

Dei bolo no cara da obra e nem apareci por lá. Sem condições.

Tenho muita dificuldade em gritar por ajuda e acho sempre que estou atrapalhando, mas teria sido melhor se tivesse pedido uma carona. Valéria, minha queridona do coração e com quem trabalho há 26 anos, passou a vida me dizendo que tenho que aprender a aceitar auxílio e a receber uma gentileza das pessoas. Mas ainda é muito difícil.

Não sou marrenta e nem é por orgulho, mas fui criada ouvindo meu pai dizer que poderia fazer tudo o que quisesse e que deveria aprender a me virar sozinha. Isso teve lá seu preço. Ou ainda tem.

Aos dezenove anos, comecei a fazer terapia. Todo o meu salário da ABBR ia para o psicanalista e eu vivia com o que ganhava de pacientes particulares em domicílio.

Naquela época era meio estigmatizado você se tratar, mas hoje, mesmo com tantos anos tentando, acho que ninguém pensa em me internar...

De lá para cá foram anos de divã! Quarenta, precisamente, e nem sei por quantos profissionais passei. Lógico que foram intermitentes - fazia e parava -, mas até hoje se acho que vai me fazer bem, que vou compreender melhor meus sentimentos ou que não estou conseguindo lidar bem com a situação da época, procuro ajuda.

Engraçado, mas comecei o texto falando o inverso, que não sei pedir socorro, e talvez seja o único exemplo em que grito por ele.

Mas por mais que tenha investido, vivido e me entregue completamente em todas as vezes, ainda assim houve um limite na capacidade de me modificar. A partir de um ponto não tem jeito - a matriz é muito mais forte que a vontade de ser diferente. Ou de conseguir fazer diferente, mas eu tentei e muito.

No começo deste meu processo terapêutico achava que ele deveria ser obrigatório para todo mundo, a partir da escola. Sempre me encantei com as descobertas feitas que não só me decifravam, mas me mostravam o outro.

Ficava mais fácil viver, tanto que eventualmente parecia que estava numa Torre de Babel, mas em que eu podia compreender o que se passava em volta. Mesmo quando me sentia a única.

Não importa o método ou a corrente terapêutica que escolhesse, mas em qualquer uma alternei sofrimentos, sempre temporários, e também comemorei segredos desvendados. De um jeito ou outro caminhava para frente.

Quando comecei o processo lá na pós-adolescência, nem imaginava o quanto me seria útil profissionalmente. Estudar Fisioterapia, trabalhar com gente, ainda mais com grupos, se tornou muito mais fácil e prazeroso, assim como as relações que criei foram sempre muito claras.

O pior é que recomendo tanto que minha equipe hoje forma um time, o das analisadas em curso. E faz tanta diferença!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Escrevo conectada

São nove da manhã e cá estou eu aguardando meu tratamento aqui na torre do Rio- Sul. Hoje vai ser mole com a injeção na barriga para a imunidade e o Zometa, para os ossos.

Como no último ciclo, estou me sentindo muito bem, tanto que daqui vou passar na obra e depois me reunir com a Rachel e a Flávia, fisioterapeutas do Núcleo, para revermos o formato do curso.

Desde 2002 ministramos o "Pilates sob a ótica das Cadeias Musculares", que veio sendo tão modificado ao longo dos anos, que sinto até vergonha daqueles primeiros grupos.

Até hoje, foram 46 turmas formadas, o que é sempre um estímulo a mudar, já que as contribuições dos alunos nos enriquece a cada edição.

Hoje não me habilito a.....

[Acabo de ser informada que minha medicação ainda não chegou. Está vindo da Barra e em dia de chuva a demora é maior. Vai dar tempo de escrever bastante.]

.....atender clientes porque fico mais cansada, mas dar aula tem sido o maior prazer. E é o possível.

Nunca desmarquei um curso por falta de inscrições porque sempre achei que os poucos inscritos eram muito mais importantes que os ausentes. Já demos um curso só para duas pessoas e foi ótimo! Grande aproveitamento.

Lógico que já ele já bombou, com gente que teve que aguardar a próxima turma, mas bombando ou não, foi sempre muito bom.

Mas dizer que nunca desmarquei é meia verdade. O primeiro curso deste ano, que teria sido em janeiro, foi cancelado dois dias antes de começar, mas a meu favor devo dizer que foi minha equipe quem tratou disso!

Eu sem me aguentar em pé, completamente desidratada e até confundindo senhas e pessoas, ainda assim não quis desmarcar de cara meu compromisso. Minha sorte é que elas tiveram mais juízo que eu. Acabei no CTI por alguns dias, justo quando deveria estar dando aula. Não teria conseguido mesmo.

Seriam oito alunas, mas sete foram avisadas a tempo. Quatro eram de fora do Rio (São Paulo e Miguel Pereira). A outra veio do Rio Grande do Sul, chegou na hora da aula, mas foi extremamente gentil e ficou aproveitando a cidade com os pais, que estavam de férias.

Agora me preparo para voltar. As sessões de químio vão acabar daqui.....

[Intervalo na escrita. Já estou devidamente conectada ao tubo por onde a "esperança líquida" entra no catéter abaixo da minha clavícula direita.]

..... a um mês e meio, lá pelo fim de abril e tenho que me preparar para o retorno. Por precaução, também preparar a equipe para me substituir se eu falhar um dia na parte que me cabe.

Escrevo enquanto a enfermeira circula por aqui trocando o soro pelo Zometa. Já me espetou a barriga e daqui a uns vinte minutos deve me liberar. Ôba!

Estou me sentindo tão bem que parece que fiz a químio há mais tempo, como se já estivesse na terceira semana depois dela e não no quarto dia.

Acabou! Vão me desconectar! Uhul! Vou à luta!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Não quero ser Papa

Estou indo para a químio.

Acordei às quatro horas, li um pouco, me levantei e fui terminar a planta do banheiro da minha obra.

Ainda não contei, mas comecei outra empreitada. Meu irmão saiu de um apartamento no qual morei há 18 anos e é para lá que nós vamos, Pedro e eu.
Depois eu volto ao assunto.

Ah! O novo Papa só tem um pulmão, como eu. E como ele, eu também vou longe! Só não quero ser Papa...

quinta-feira, 14 de março de 2013

Acabou-se a folga

Pedro tem me cobrado muito para que eu escreva. Como estou na semana de químio, que será amanhã, aproveito para fazer absolutamente tudo antes de dar a tal parada. É como na semana antes de umas férias grandes, quando queremos colocar a vida em ordem antes de viajar.

Fiz tanta coisa, todas boas, que ficava muito cansada. Além disso, não me vinha nada especial para contar e não quero que este espaço seja um diário, o que não interessaria a ninguém!

Terça-feira acabou o que considero meu tempo de folga e recomecei o período de consulta, exame de sangue, preparação e a própria quimioterapia. Argh!

Estive muito tranquila nas semanas anteriores e não senti qualquer tensão em relação ao resultado da tomografia, que serve para controlar se o tratamento está ou não está funcionando.

Pedro estava completamente nervoso, mas se manteve discreto todos esses dias e só demonstrou seu estado durante a consulta.

Meu médico querido, Mauro Zukin, estava conversando e rindo, o que sempre me tranqüiliza, até que disse que ainda não tinha lido o exame! O CDPI não havia enviado o exame do tórax, de modo que tivemos que esperar a consulta da cliente seguinte acabar para que nos desse alguma resposta.

Pedro estava muito nervoso e me dei conta de que minha irmã havia me ligado mais do que o costume durante o dia. Também o meu cunhado, várias ligações perdidas, que nem havia ouvido. Rachelzinha passou torpedo, e apesar de não demonstrarem, estava todo mundo ansioso! Menos eu.

Resultado: diminuiu o nódulo do fígado e o do pulmão está estável, mas pela cabeça lógica do meu filho, este também diminuiu. Sigam seu pensamento: entre o último exame de controle, em dezembro, e o início da químio, em janeiro, passou-se um mês, onde, com certeza, houve algum aumento. Portanto, como houve crescimento e hoje está igual, conclui-se que diminuiu, já que voltou ao que era em dezembro!

Vou fazer mais dois ciclos além dos quatro que estavam previstos. Do jeito que estou me sentindo bem, vai ser mole.

Do consultório fomos jantar com meu cunhadinho, aniversariante do dia, minha irmã e Marcella, minha sobrinha mais velha. Aniversário e a boa notícia médica foram motivos de comemoração dupla! Viva!

Ontem acordei muito cansada. Maria estranhou ainda me ver dormindo ao chegar.

Isso comprova que não posso ter dois expedientes. Abusei. Estive no Núcleo das 9 às 15h, fui ao Rio Sul para a consulta, mas antes dela rodei procurando o presente de aniversário. De lá fomos à Barra e só cheguei em casa quase à meia-noite. Estou me achando, mas o corpo me sinaliza e me deixa arrasada no dia seguinte. Vou me lembrar de obedecer. Contra a vontade.

terça-feira, 5 de março de 2013

Medo oscilante

Não sei se estou com medo da morte. Há mais ou menos um mês tinha certeza de que não, mas hoje não sei dizer.

Acho que o que sinto é uma anestesia geral. Só estou aberta ao que é bom, ao prazer que tenho tido de viver, de encontrar gente, de poder sair de casa, comer fora...

Talvez esteja exagerando no comer fora, mas encontros sempre incluem uma refeição e eu não rejeito uma!

Comecei a pensar nisso há pouco tempo e vi que não penso mais em morrer. Tinha como certa essa possibilidade e fiquei de stand-by. Estava vivendo e aguardando como se um dia fossem me desligar dos aparelhos, figurativamente falando, claro!, porque nem em pesadelo consigo pensar nessa possibilidade. Hospital? Morte horrível? Não. Vou morrer como meu pai – dormindo.

Para falar a verdade tenho certeza de que deletei a idéia de morrer, não penso mesmo nisso. E aí vem a analisada de muitos divãs dizendo que é alienação, negação e que devo encarar a verdade para poder resolver a situação.

Resolver o quê? Essa situação não tem solução diferente, saída honrosa ou escolha. É fato.

...

Uau! Acabo de me dar conta de uma coisa! Esse medo da morte, que me paralisou em 2006, foi em vão! Não morri, apesar das estatísticas e da medicina. Sofri à toa! Estava de cara para o gol, onde eu era a bola, e chutaram fora! Uau!

Eu era a bola da vez e um monte de gente amiga passou à frente e faleceu sem aviso prévio ou sequer estar condenada como eu. Muitos amigos queridos, muitos conhecidos se foram durante esse tempo. Tião R., amigão da Fátima e do Zézinho, a respeito disso diz, com a maior convicção: -“A Bia é imorrível!” Eu adoro essa afirmativa!

Meu coração está a toda. Não tinha pensado nem sentido isso antes e agora estou compreendendo tudo. Esses escritos têm sido uma terapia. Além de ficar horas em um texto – escrevo, me afasto do computador, vou almoçar ou jantar, volto, releio, faço, desfaço, refaço - depois de pronto ele não sai de mim. Fico dias pensando no assunto. E sentindo. Por isso tem sido terapêutico!

O fato de rever cada acontecimento tem me levado de volta “à cena do crime” e com ele têm voltado os sentimentos, que fico processando. E isso é o oposto do tenho sentido atualmente. Talvez esteja desviando o medo de hoje para o passado, o que justificaria a “coragem” de agora, já que minha dose de pânico está sendo gasta com o que já se foi.

Resolvi cuidar da vida em vez de ficar pensando na morte. Só pode ser isso! E viva a alienação!

sábado, 2 de março de 2013

Corrente-da-Bia

Estou devendo essa história, a que me salvou daquele prognóstico macabro de, no máximo, oito meses a um ano de vida.

Em maio de 2006, três meses depois que minha irmã Flávia faleceu, resolvi procurar um ortopedista para investigar uma dor do quadril direito, que persistia há um bom tempo, desde que fiz uma aula de surf para aprender o esporte. A aula foi super cansativa, levando-se em conta que eu tinha quase 50 anos...

Naquele dia repeti milhões de vezes o movimento de passar da posição deitada a de pé, apoiada na perna direita e nas mãos, com a prancha na areia, lógico!

Estava exausta, mas depois de passar para a água e conseguir pegar três pequenas ondas, me achei o máximo - quase uma sereia!

Em casa, no meio da tarde, comecei a sentir uma dor insuportável no quadril direito, provocada por uma bursite que arrumei na aulinha, tão inofensiva, para quem tem menos de 30.

Como não sou chegada a correr para médico cada vez que sinto qualquer coisa, fui fazendo meus alongamentos e driblando o incômodo por uns dois anos. Até que procurei um ortopedista, que pediu uma ressonância magnética da bacia.

Quase no final do exame uma médica bem jovem e que nunca havia me visto, entrou na sala e disse como se estivesse dando bom dia: -“Você está com metástase óssea”.

Não sei nem reproduzir meu sentimento na hora. Um misto de pavor e solidão (eu estava sozinha no CDPI) que me fez perder o chão. Não sabia o que fazer e saí andando pelos corredores do Barra-Shopping, onde estava, num indo e vindo sem rumo.

Liguei para o Mauro Zukin, mas não consegui falar. Tentei o cirurgião torácico que havia retirado meu pulmão um ano antes, Paulo di Biase, que me aconselhou a ter calma e insistir no contato com o Zukin, o oncologista que desde o começo me acompanhava. Isso até hoje.

Não satisfeita em me dar um diagnóstico nefasto sem me conhecer, e em local e situação inadequados, a tal médica ainda cruzou comigo pelos corredores e veio ratificar seu laudo. Havia mostrado o exame ao chefe que confirmou a metástase.

Consegui dirigir de volta para casa com o sentimento de morte iminente, de medo e tristeza por ter que deixar o Pedro e a vida. Era como se eu fosse obrigada a sair da festa antes que ela acabasse.

Passei uns dias assim, como se não acreditasse em nada, mas minha irmã Denise me salvava quando me sentia pior e sem saída. Ligava para ela e pedia para repetir “aquilo” que eu estava precisando ouvir outra vez. Ela dizia com todas as letras e, não sei como conseguia, com uma certeza e veemência que não dava para duvidar: -“Anginha, você NÃO vai morrer! Vai viver muito ainda, há de haver alguma saída e vai dar tudo certo. VOCÊ NÃO VAI MORRER!”

Eu acreditava, me acalmava na hora e desligava o telefone mais confiante – vá entender a cabeça da gente... Mas precisava ouvir dela. Depois, eu soube que quando ela desligava, chorava muito e ficava arrasada. Talvez nem tivesse idéia do bem que me fazia ou da força que me passava. Ela me salvou, no mínimo, de enlouquecer.

Nessa época, ela e eu freqüentávamos um grupo de estudos do evangelho espiritual. Não compreendíamos bem o que se explicava, mas eu precisava entender porque tinha tanto medo de morrer, a única certeza da vida.

No dia que soube do prognóstico do tempo que me restava, cheguei chorando a esse grupo falando um monte de coisas que ainda queria viver e, entre elas, ver o Pedro se casando. Alguém me consolou dizendo que, de uma maneira ou de outra, eu estaria presente na cerimônia. Foi pior.

Chorei mais forte ainda e respondi que queria ir andando, de sapato e bolsa, entrando com ele na igreja e não sobrevoando os convidados! Não me lembro o que ouvi depois...

No começo da quimioterapia meu médico falou que havia um remédio moderno que era caríssimo, que estava dando os melhores resultados em casos como o meu e que deveria entrar na justiça para recebê-lo do governo. Custava mais de nove mil reais a caixa que durava um mês. Comprar? Nem pensar!

Não sei como tudo começou, mas de repente foram se juntando tantas forças do bem, tantas pessoas se envolveram que embaralho a ordem cronológica dos fatos que se seguiram.

Meus amigos queridos começaram uma corrente que o Valmir M. deu a idéia e a Fátima, madrinha do Pedro, viabilizou. Era para correr entre os conhecidos e amigos mais chegados e pedia um depósito de cinquenta reais ou o quanto pudessem, numa conta bancária minha, que o Valmir passou a ter acesso.

Se daria certo ou seria um fracasso, não sabíamos, mas acho que minha tristeza e falta de esperança mobilizaram esses amigos tão amados a agir de alguma maneira. Mas foi um sucesso!

A corrente cresceu numa progressão geométrica com os amigos envolvendo seus parentes, suas redes sociais e todo mundo querendo ajudar. No primeiro mês já conseguimos o valor do medicamento, para grande surpresa nossa!

Alguém descobriu que na Argentina o remédio era mais barato, custava sete mil e duzentos reais. Na época um amigo do meu Pedro, o Pedro Victor, tinha os pais, Aray, Lucia e a caçula Bruna, morando em Buenos Aires. Logo eles se ofereceram para a compra e assim o fizeram por vários meses, sempre dando um jeito da encomenda chegar até mim.

A Bibi, amiga de infância da minha prima Lúcia, outra querida, se ofereceu para ser portadora da primeira caixa, já que estava a passeio por lá.

A entrega ”oficial” foi em um almoço festivo na casa da tia Thaís com minha tia, primas, cônjuges e filhos. Era a esperança em forma de comprimido! Que alegria!

A corrente-da-Bia continuava a crescer, e não era somente através dos depósitos bancários, mas pelas atitudes que eram tomadas por muita gente tornando possível o processo. Durante seis meses todos esses anjos, conhecidos e desconhecidos, viabilizaram as caixas milagrosas que me trouxeram vida, saúde e esperança.

Celso Q., outro grande amigo que se envolveu na trama, conseguiu mais uma vitória. Contou o caso no trabalho e a advogada da firma, Dra. Marcia, que nem me conhecia, ofereceu-se para entrar na justiça em meu nome para que o governo bancasse o tratamento.

A corrente me salvou. Com ela compramos seis caixas de Tarceva, o milagre via oral, e no final ainda sobraram dois mil e poucos reais na conta e eu não sabia o que fazer com eles. Devolver seria impossível. A quem?

Soube que um paciente do Mauro Zukin, o Antares, que também havia iniciado algo semelhante para ele, com o mesmo intuito, não estava conseguindo o suficiente. Pronto! Repassei a ele meu saldo remanescente.

A corrente terminou quando o governo, através da ação impetrada pela Dra. Marcia, passou a me fornecer o Tarceva. Foram três anos recebendo ininterruptamente até que minha outra amiga querida, Elaine Q., advogada também, teve que entrar na história para conseguirmos outras tantas caixas através de outra ação.


Essa foi a maior demonstração de amor, solidariedade e amizade que já havia visto por um único alvo. Foi numa proporção gigantesca e incalculável!

Eu me impressionava com a grandeza dos valores, com o movimento criado em torno e questionava o merecimento. Minha comadre Fátima dizia que era porque eu havia feito uma “poupança-espiritual” ao longo da vida. Invenção da cabeça dela.

E foi assim que eu não morri.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Ministério da Saúde adverte

Alegria faz bem à saúde. E hoje foi comprovado, mais uma vez.

Ontem fiz 59 anos e foi uma das comemorações mais gostosas que já tive. Não houve convites, mas convidados espontâneos. Pedro organizou um café da manhã que eu apenas ajudei a montar – ele foi super eficiente! Dividiu todo o trabalho e com prazer. Adorei!

Saí cedo para a injeção na barriga e quando voltei, às 9:30, já tinha chegado gente aqui.

Não foi um café da manhã, mas uma comemoração da vida, da amizade, do carinho de todos por todos – essa foi minha sensação. Todos se conheciam e houve muita conversa, risada e comilança!

Aproveitamos para comemorar os 83 anos da minha mãe, que é hoje, dia 25, e o da Denise, que foi dia 5. Havia torta para todas nós! Na minha estava escrito AINDA VOU LONGE, coisa que cada vez mais acredito ser a maior verdade!

Até ontem eu estava naquele período dos primeiros dias pós-químio, que me deixam numa excitação enorme, ligadona e até com dificuldade para dormir. Historicamente, hoje, no quarto dia, deveria ter acordado como se estivesse sem pilha – e foi diferente! Acordei normal, como nos últimos dias!

De manhã, Pedro foi para o Núcleo, para aula de Pilates, e resolvi ir junto, de tão animada. De repente, e isso foi surpreendente, sem aviso prévio, parecia que eu havia sido desligada da tomada. Sem mais nem menos! Pifei. Por sorte havíamos ido de carro, porque teria sido difícil caminhar até aqui.

Viemos para casa e dormi o resto da manhã. Acordei para almoçar e, surpresa! Inteira novamente!

À tarde fui ao Rio-Sul para a injeção na barriga e voltei de taxi, e ainda tenho energia para escrever aqui!

Isso tudo é novo, diferente do que sempre foi e o que está fazendo essa diferença só pode ser a minha felicidade! Ok, a injeção de Granulokine também ajuda, mas estar feliz deve contar, certo?

O aniversário me empolgou, me deixou tão feliz e me trouxe tanta alegria que acabou se refletindo no meu estado geral.

Além disso, ando envolvida com este blog, cuja idéia, a princípio, achei detestável. Não seria muita exibição e um risco enorme de me deixar levar por essa exposição narcísica? Pode ser, mas que está me fazendo um super bem, isso está!

Escrevo quando sinto que há o que dizer e levo um tempão pensando e sentindo o assunto que pretendo abordar.

Bom, mesmo com todo esse up-grade, no estado geral,vou tentar me poupar.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma amiga de infância

Não disse que já me sentia quase curada? Pois ontem encerrei com chave-de-ouro meu último dia de boa disposição, energia e atividades.

Hoje de manhã recomeço o terceiro ciclo da químio e aí a história vai se repetir. Será? Minha sensação é que, animada e esperançosa do jeito que ando, a reação seja outra e eu não fique tão sem forças, só querendo ficar deitada.

Ontem a equipe de trabalho comemorou meu aniversário antecipado almoçando no Turino. Foi uma delícia! Como sempre, nossas reuniões em restaurantes têm muita risada e emoção – e a emoção é sempre coletiva...

De lá, seguimos para o NÚCLEO para o bolo, o café, os olhos-de-sogra, que adoro, além dos brigadeiros, ambos feitos pela Renata, irmã da Flávia e nossa “sócia honorária”, já que a Flávia a coloca em mil funções e encrencas por nossa causa. Obrigada, Rê!

A festa foi interrompida pelo meu anúncio de que queria dar a aula teórica que há muito vinha prometendo. Como agora não adio nada na vida...

Antes do término da aula, chegou minha amiga de Porto Alegre, Marie Anne, para passarmos a tarde juntas naquelas conversas sem fim. Ela ainda não conhecia nosso espaço. Lógico que acabou participando da aula e até nos deu informações bem relevantes.

Ela é odontologista e mais uma vez pudemos confirmar o quanto qualquer desvio postural influi no corpo inteiro, podendo atingir os dentes, assim como desvios da arcada dentária podem causar problemas que desçam até os pés, por exemplo. Aprendemos todas um pouco mais. Acho o máximo!

Viemos para minha casa e voltamos à época das conversas longas que alimentamos desde o tempo de meninas de 11 anos até hoje, apesar dos quilômetros de distância: casamentos, filhos, separação, vida profissional, a perda do meu grande amigo Beto, seu marido, e tudo o que vivemos ao longo dessas quase cinco décadas.

Estava escrito nas estrelas que seríamos amigas. Dos 11 aos 15 anos fui Bandeirante, o que teve uma grande importância na minha formação. Foi feita uma campanha estimulando que nos correspondêssemos com outras Bandeirantes, de diferentes estados. Separei 3 endereços e escrevi minhas cartas. Recebi respostas de todas, mas a colega de Porto Alegre que eu havia escolhido tinha uma amiga, que nem pertencia ao grupo, mas também queria uma correspondente para chamar de sua. E foi assim que a Marie entrou na minha vida!

As outras não vingaram, mas a Marie ficou para sempre! Nos tempos de Correios nossas respostas demoravam 4 dias para chegar, mas as respondíamos no mesmo dia! A produção de cartas era intensa!

Acompanhávamos a vida uma da outra nos mínimos detalhes, as ansiedades, as descobertas, e nossas famílias começaram a se envolver, de tão importante que era a chegada de cada correspondência.

Com aproximadamente uns 5 anos de amizade, pai, mãe, irmã caçula, ela e a amiga Marília, vieram passar umas férias no Rio. Foi uma festa! Nossas famílias mataram a curiosidade e se gostaram muito. As meninas conheceram também alguns primos meus na casa do tio Angelo e da tia Ivoni e um primo do Pará se encantou com a Marília. Nos demos todos muito bem.

Resumindo: alguns anos depois meu ex-noivo e eu fomos de ônibus para Porto Alegre para sermos padrinhos de seu casamento e mais tarde, ela, Beto e as crianças vieram algumas vezes para a casa onde eu morava já com Luiz e Pedro e até passamos umas férias todos juntos em Cabo Frio com as crianças.

As notícias foram ficando mais espaçadas. Ela com três filhos, eu com um e nossas vidas profissionais dificultavam a escrita, mas o invento da internet voltou a nos deixar mais próximas sem tanto gasto de telefone – ainda bem.

Há muitos anos a Marília veio morar no Rio por um tempo, na vila da aeronáutica, na Ilha do Governador. Marie, numa vinda sozinha, nos aproximou fisicamente e a amizade, que já era alimentada por tabela, ficou mais forte.

Há três anos, fomos passar uns dias em Florianópolis, na casa da Marília, Marie indo de Porto Alegre e eu do Rio, e foi aquela delícia de encontro! Velhas amigas convivendo depois de muito tempo separadas, mas sem nunca terem perdido o fio do afeto que nos ligava através da nossa amiga em comum.

Quando o caçula da Marie, André, que estava com 18 anos, quis estudar teatro na CAL, aqui no Rio, ela e ele vieram para minha casa para arranjar tudo na escola e procurar moradia. Da minha casa ele não saiu. Afinal, não conhecia a cidade, não tinha amigos - mal nos conhecia -, mas passou a morar conosco, Pedro e eu. Sorte a nossa!

Da experiência de ser o caçula, o André passou a experimentar o que era ser o irmão mais velho, pois foi assim que o Pedro o via – e o adorava. Minha família o adotou. Aqui ele tem primos, tios e até avó!

Depois de quase um ano, de se sentir meio carioca, se deslocando com segurança e cheio de amigos, quis morar sozinho e nossos encontros passaram a ser mais raros. Ele se formou, fez algumas novelas - atualmente faz “Lado a lado”- e é um orgulho para a tia postiça!

O amor por ele é como o que tenho pela mãe dele: podemos passar um tempão longe, mas a intimidade chega junto, parece até que nos vimos ontem...

Marie acabou saindo tarde aqui de casa. A sorte é que nunca saiu da minha vida!



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Uhul! Estou anêmica!!!

Pode parecer estranho eu comemorar uma anemia, mas quem já teve ou tem câncer, sabe que qualquer coisa que apareça, de unha encravada a caspa, o primeiro pensamento é o de ser uma recidiva.

Há mais de um mês, desde que voltei do hospital, tenho estado muito ofegante. Acabo de tomar banho e tenho que me sentar na cama para me recuperar; ando dez passos e descanso, sonho com uma cadeira a todo momento.

Tinha certeza (lá no fundo...) que a doença estava me consumindo e eu estava indo ladeira abaixo, sem muita salvação.

Ontem fui com o Pedro à consulta de rotina, meio assustada e esperando ouvir o que imaginava que estivesse me acontecendo. O Mauro Zukin não deu a menor bola! Não quis saber em que situação eu ficava ofegante, se faltava ar, nada! Respondeu direto: -“Isso é anemia”.

Uau! Pedro e eu nos olhamos e trocamos o maior sorriso de felicidade! Que alívio! Para quem estava esperando uma condenação fatal, descobrir que o que eu preciso é feijão? Essa eu tiro de letra!

A outra boa notícia é que daqui a quinze dias farei outra tomografia para ver o quanto a químio está adiantando para o pulmão e para o fígado. Dependendo do resultado, farei apenas quatro sessões de tratamento, não seis como está combinado. Imaginei de cara uma melhora da doença.

Talvez a Poliana que existe mim tenha feito essa interpretação em vez de imaginar exatamente o contrário: o exame mostrando que não estava adiantando NADA e que não valeria insistir naquele tratamento...

Impressionante como nossa cabeça funciona. De ontem para hoje já não acho que vou morrer daqui a seis meses, voltei a acreditar que ainda posso dar as aulas do curso no Núcleo, a aporrinhar a equipe, a me sentir cheia de gás e de idéias, e a resolver antigas pendências.

E com isso, vou voltando a ficar cada vez mais parecida comigo em meu estado normal. Oba!

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Encontro de primos

Na quinta-feira, dia 14, começou a semana em que fico bem e tendo a querer fazer tudo para compensar os 10 dias de pilha fraca. Já tive encontros deliciosos, mas acho que abusei e hoje amanheci num cansaço... É diferente de pilha fraca, é cansaço dos bons, daqueles pós-carnaval apesar de não ter saído em nenhum bloco ou escola de samba.

Duas amigas muito queridas, mas muito queridas, chegaram ao Rio na própria quinta: Angela Santos veio de São Paulo para o fim de semana e Marie Anne de Porto Alegre, com filha e netinha, para férias de quinze dias.

Sexta foi almoço no Zuka, com Angela e Carminha, o que rendeu um papo de quatro horas, muitas lembranças e histórias. Minha sensação era de liberdade: comi o que quis, dirigi e me senti realizada com a perspectiva de mais dez dias assim, até a outra fase sem pilha chegar.

Sábado fui tomar café da manhã com elas, Valmir, marido da Carminha, e Pedro, que me deu o prazer da sua companhia e a mordomia de ser meu motorista.

Como até então só tinha validade e autonomia para um evento por dia, me arrisquei a ir a outro à tarde, marcado há três semanas – o encontro dos primos Queiroz Varella e agregados.

Passei a tarde deitada me recuperando do café da manhã da Escola de Pão e fui! Até que fiquei firme, apesar de preferir ficar sentada e com isso perder algumas conversas de onde só se ouviam gargalhadas! Éramos 39 pessoas.
Meu pai e meus tios, todos falecidos, eram extremamente unidos, se gostavam e nós crescemos convivendo uns com os outros em, pelo menos, todos os finais de semana, além das férias e das escolas, já que algumas estudavam no mesmo colégio.

Ontem foi uma festa! Minha mãe e tia Thaís, as matriarcas, estavam cada uma mais inteira que a outra. Éramos 13 da primeira geração, 12 filhos nossos, apenas uma neta, a Sophia, e mais os maridos, esposas e namoradas.

Meu sentimento sempre foi o de pertencer, o de fazer parte desse grupo Queiroz Varella, assim como sempre senti que eles faziam parte da minha vida. A sensação de falta de cerimônia, de intimidade legítima, de ter participado da vida de todos, longe ou perto, são garantia dessa proximidade.

Quando não participávamos diretamente da vida do outro, ou sabíamos de um primo através de outro, ou por todas as nossas mães que alimentavam o elo pela troca de notícias. Hoje mesmo, domingo, sei que minha mãe vai telefonar para o Ceará e com certeza vai contar à Pixita a alegria e o prazer que foi esse encontro de ontem. Ela se encarrega de incluir o lado de lá.

As lembranças da minha infância são de alegria. Tanto em casa quanto na escola e entre os primos, tios por parte da minha família materna em Juiz de Fora também e se houve momentos de tristeza foram enterrados no inconsciente e lá ficaram. Ainda bem!

Assim são as lembranças da convivência entre primos, em várias situações, lugares e épocas, da infância até a entrada na faculdade, o que nos fez tomar rumos diferentes e diminuirmos os contatos – mas o elo continuou a existir.

Cresci ouvindo minha mãe dizer que família era o que havia de mais importante. Eu era a mais velha de nós quatro e quando mais nova não gostava de ter irmãos – era muita gente para dividir atenção.

Lembro-me perfeitamente que quando minha irmã Denise se casou, meu sentimento mudou completamente. O casamento provocou uma mudança do status dela em relação a mim, como se tivesse sido alçada a um patamar de gente respeitável, digna de atenção e que a partir daquele momento merecesse o “tratamento” de igual - cresceu, se agigantou, não era mais só a irmã menor. Eu devia me achar...

Há muito tempo que meu sentimento é o de cada vez gostar mais de ainda ter mãe, ter meus irmãos, cunhados e sobrinhos.
E por sorte e para minha alegria, consegui manter a família que veio com o Luiz, pai do Pedro, com quem tenho uma boa relação. Através do convívio consegui manter todos os vínculos conquistados, incluindo a Zilah, meus cunhados, sobrinhos, primos, tios, irmãos do Pedro e quem mais chegar!




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Eu, Fisioterapeuta

Estou no Núcleo e é impressionante como o ar daqui me faz bem. Deveria me mudar para o sótão.

Só de saber que viria, já dormi melhor, acordei cedo e a vontade era tão grande que me fez confundir o horário - cheguei uma hora mias cedo do que deveria.

Meu ciclo de trabalho está se completando. Quando penso no tempo da faculdade, vejo que fui coerente comigo e com a vida que sonhava naquela época.

Adorava ortopedia, sempre gostei de correção postural, apesar do pouco resultado que conseguíamos na época. E tinha algumas certezas: evitar a qualquer preço trabalhar nos finais de semana e nunca deixar de tirar férias anuais.

Desde quando estudante ou trabalhando na ABBR, amava o que fazia. Meus clientes tinham grandes lesões -paraplégicos e tetraplégicos. Era um esforço enorme - por vezes eu tinha muita fé, às vezes quase certeza que um ou outro voltaria a andar. Ninguém conseguiu, apenas um criador de ovelhas de Pernambuco, que deu alguns passos, ficou na maior felicidade que alguém poderia ter – às custas de uma grande espasticidade – e que voltou para seu estado não andando, mas com o gostinho de ter conseguido dar três passos e a esperança de mais.

Até hoje tenho uma fotografia que ele me mandou de suas ovelhas. Lindas!

Até hoje tenho uma fotografia que ele me mandou de suas ovelhas. Lindas!

Outro cliente internado na ABBR era conhecido pelo apelido, Beleza, e como a maioria internada, era bem humilde. Um belo dia, chegou para o atendimento todo feliz, dizendo que havia ganho um tratamento nos EUA, na clínica Mayo, Flórida, EUA, referência em fisioterapia e o sonho de todos os clientes.

O problema, dizia ele, é que não poderia viajar sozinho e que necessitaria de um profissional para acompanhá-lo. Eu poderia? Lógico! O negócio era urgente e em duas semanas seria nosso embarque.

Sem falar inglês, sem passaporte e funcionária contratada do hospital, lá ia eu!

Acabei seu atendimento e fui direto para a sala do diretor da ABBR, um senhor muito gentil – não me lembro o nome dele agora – pedindo que me dispensasse porque eu iria viajar, que não poderia perder tempo e lhe contei o caso na maior excitação! Mal conseguia me explicar, tamanha euforia!

Ele ouviu atentamente (hoje entendo seu olhar de adulto experiente pensando - “Senhor, ela não sabe o que diz...”), fez várias perguntas pertinentes às quais eu não soube responder a nenhuma. Concluiu me aconselhando a continuar a trabalhar, que aguardasse os acontecimentos e que SE alguma coisa se concretizasse, ele me deixaria partir imediatamente. Mas nada de pedir as contas naquele instante. E que voltasse ao trabalho.

Ficamos as duas semanas seguintes na maior expectativa, fazíamos planos, o dia do embarque chegando, e nada. Nem o Beleza nem eu fomos a lugar algum. Mantive meu emprego na ABBR e ele continuou anos por lá.

Em 1980 conheci a Antiginástica de Thérèse Bertherat através de seu livro “O corpo tem suas razões” e me apaixonei pelo método. Excluindo a parte psicológica comecei a aplicar com os clientes os exercícios que ela propunha. Foi um sucesso! Nunca havia conseguido resultados tão rápidos e visíveis!

Na época era sócia de minhas amigas Lúcia, Alcione a Celinha, em Copacabana. Era um tempo em que a Terapia Reichiana se tornava mais difundida no Brasil e outros métodos e técnicas novas chegavam a cada dia.

Como morava na Tijuca e já detestava engarrafamento (que saudades daquele trânsito de então...), resolvi sublocar um espaço e montei um grupo perto de casa. Em três meses estava com três turmas cheias e decidi partir para um local onde pudesse me expandir.

Aluguei a sala da rua Soriano de Souza, minha mãe virou secretária, ficou por 10 anos e assim começou a clínica. Foi um sucesso imediato, porque não havia quem fizesse esse trabalho na Tijuca, nada de concorrência, só na zona sul, como várias amigas que fizeram parte deste grupo pioneiro.

Eu gostava tanto de trabalhar com grupos, mas tanto, que por um bom tempo minha análise tratou da culpa que sentia por me divertir muito, rir demais, fazer vários amigos e ainda por cima ganhar dinheiro com aquilo!

Houve uma época em que não conseguia dar conta da demanda – chegou a haver uma fila de espera de mais de 200 nomes.

Pela enorme procura fui convidando algumas pessoas para trabalharem comigo e esse foi o início do que é hoje o Núcleo. Valéria e eu estamos juntas há 26 anos, Cristina há 23, Rachel e Flávia há 12 e assim foi. Na equipe de hoje somos 10 fisioterapeutas, uma administradora e quatro funcionárias.

Fui fiel aos meus sonhos. Trabalhei sempre com ortopedia e correção postural, nunca trabalhei em fins de semana, jamais deixei de tirar férias e continuo a me divertir muito!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Flávia, minha irmã

Hoje faz 7 anos que minha irmã caçula, Flávia, faleceu – 13 de fevereiro de 2006. Tinha 46 anos.

Começou a não se sentir bem logo depois do Natal, sentia-se super mal, não queria comer nada o que, no caso dela, era um sinal de que alguma coisa ia MUITO errada!

Nossa fada-madrinha, a homeopata Fátima Vervloet, examinou-a, não gostou muito do que sentiu e pediu logo um ultra-som - não tenho certeza de que o exame tenha sido esse.

Foi diagnosticado um câncer de fígado.

Ela e minha mãe se mudaram para minha casa e ela piorava a cada dia. Já não queria ficar nem sentada, só deitada, sem vontade alguma de se alimentar, de conversar, de nada!

Quem a conheceu sabe o quanto ela era esperta, apesar da sua deficiência intelectual – Flávia sofreu anóxia na hora do nascimento e teve paralisia cerebral, mas era muito independente. Não sabia ler nem escrever, mas fazia algumas compras na padaria, tomava o ônibus certo para ir até a Praça Saes Peña para pegar a condução da APAE, tinha suas manias e era muito, mas muito engraçada! E esperta!

Um dia, nessa época em que esteve lá em casa, pediu um remédio para melhorar – coisa impossível naquela situação. Decidi lhe dar umas balas de TIC-TAC sem que ela percebesse o que era. Ainda pedi que não as mastigasse. Depois de comer as pastilhas, virou-se para mim e pediu: -“ Me dá mais um remedinho TIC-TAC?” Foi uma gargalhada só!

Resolvemos contratar enfermeira para dormir com ela, pois passávamos o dia ao seu lado atendendo no que quer que fosse e à noite estávamos exaustas.

Um dia ela estava se sentindo muito mal e não conseguia mais ficar de pé. Nossa irmã Denise e eu a colocamos em uma cadeira de rodinhas de escritório e, junto com a mamãe, a levamos para o Barra D’Or. Passamos a tarde com ela, na emergência, mas à noite conseguiram uma vaga para internação no Hospital São Sebastião, em Laranjeiras. Fui junto na ambulância e ela estava muito incomodada com o sacolejar e a sirene.

Não tínhamos a noção da gravidade até que a Fátima Vervloet chegou, leu o exame de sangue feito naquele dia e nos disse que era muito grave, que seria uma questão de pouco tempo. Quanto? No máximo algumas horas...

Menos de duas horas depois Flávia faleceu.

Exatamente no ano seguinte, dia 13, faleceu meu compadre Aníbal, marido da Nany, pai da Rachel e do Sandro, de quem ela gostava muito. Eu tive certeza absoluta que ela o receberia com sua risada e fazendo muita festa, como era seu jeito feliz de sempre!

Muita saudade de você, Fifa.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Agora com fotos

Denise deu a ideia de ilustrar com fotos as minhas histórias.
Seguem a fachada verde antiga do Núcleo e a atual, laranja, depois da compra da casa e da reforma.
As outra são do nosso apartamento, aquele que permitiu a compra do Núcleo.
Gente, estou optando por não responder invididualmente aos comentários, mas tenho lido e adorado cada um deles. Muito obrigada!










domingo, 10 de fevereiro de 2013

Balanço geral - parte 2

Reli o que já escrevi até agora. Dá uma sensação enorme de incompletude; parece que é um release dos assuntos, que nada está direito e dá vontade de completar cada frase, cada história.
Tanto o que contar... só que isso não é uma biografia, é um “boletim médico” e uma vontade de continuar.

Quando contei da compra do apartamento, apesar de falar da rapidez como foi decidida, não consegui transmitir a urgência do sentimento e a necessidade premente de nos acomodar em um lugar para chamar de nosso.
Estava conversando com uma cliente, Irene Duarte, na fila do banco e passava um pouco de meio-dia, quando a conversa me fez sentir o pânico de resolver tudo logo. No final da tarde, me encontrei com Pedro e começamos a busca, que durou apenas duas horas, até decidirmos a escolha. Novembro de 2007.

Coloquei meu aprendizado de Design, com alguma ajuda, em prática, e depois de um tempo de reforma, obra, sujeira e quase falência, lá estávamos nós na nova casa, de onde jurava que jamais sairia! Doce ilusão. Eu acreditava, de verdade, que seria a última mudança, mas, por trás, meus irmãos fizeram uma aposta de que seriam, no máximo, dois anos. Erraram por um: demorei três.

Durante a época da faculdade de Design, já no primeiro semestre, me meti a ajudar uma amiga com quem nem tinha tanta intimidade, mas que acabamos virando amigas de infâncias e “fundamos” a B&B – Bárbara & Bia Reformas. Bolamos a nova planta e tocamos a obra dos filhos dela. A gente se achava... Não sei quem era a mais maluca!

No fim do ano Celso e Terezinha, amigos muito queridos, reformaram o apartamento inteirinho – e esse era de respeito – com a ajuda de quem? Da metida que vos escreve e que dava palpite em tudo!

A terceira obra foi a minha, a do tal apartamento. Foi o lugar onde mais amei morar! Pequeno, bem decorado, lindo e aconchegante!

Enquanto tudo isso acontecia eu continuava a trabalhar, diminuindo meus atendimentos com clientes, mas estava sempre na clínica, que nessa época ainda não se chamava Núcleo.

O trabalho era - sempre foi - uma grande fonte de prazer, de alegria, de satisfação. Como a equipe estava crescendo, surgiu a vontade de criar uma estrutura maior, mais bem montada, mais profissional. Afinal, desde o início administrei com o jeito, conhecimento e alma de fisioterapeuta.

Quando Pedro estava na faculdade de Administração começou a me perguntar sobre a clínica e ficava impressionado: como podia dar certo daquela maneira?Foram inúmeras perguntas e respostas insatisfatórias. Até que me apresentou a um professor e fiquei sabendo da existência de um tal Plano de Negócios! Marcus Vianna chegou à clínica, fez reuniões semanais por quatro meses com toda a equipe e lá pelas tantas me deu um xeque-mate: ou eu contratava alguém para administrar ou... nem sei que seria a outra opção, mas foi quando a Tânia Salgueiro chegou às nossas vidas.

A essa altura, já havia nascido o Núcleo Angela Beatriz Varella.

Como num Plano de Negócios, criamos metas, que, no fundo, tinha certeza que não chegaria a cumprir, mas não confessava. Não seria eu a desanimar a equipe. A maior delas seria partir para um novo espaço, tanto maior quanto mais bem localizado. Eu não tinha a menor condição de trocar a casinha da clínica na Rua Henry Ford por algo mais imponente. Mas acabei trocando. Em fevereiro de 2011, fui almoçar no Turino, na Rua Santa Sofia, com a Lucy R., Inês Santos e Carmem Moreno. No meio da refeição me perguntaram se eu havia visto a placa de VENDE-SE na casa em frente. Nem reparei e nem fiquei curiosa. Sou muito pé-no-chão. Não queria nem saber o que era...

Quando saí fiquei impressionada com a casa à venda: era linda, enorme, jardim na entrada, garagem para mais de um carro, dois andares... um sonho! Insistiram e anotei o telefone. Dois dias depois, me encontrei com o corretor, Rodrigo, e conheci o imóvel. Minha sensação era de que era meu número! Bastaria pintar as paredes, que eram todas coloridas de cores fortes, fazer a mudança e ser feliz! Outra doce ilusão.

Na quinta-feira, levei a equipe toda para lá e foi um auê! Elas ficaram elétricas, todas falando ao mesmo tempo, fazendo reformas imaginárias e nem sei mais o quê. Acho que fiquei mais calada, observando e tentando equacionar a troca de uma casinha pequena por algo tão grandioso!

De lá, voltamos para a clínica e o Rodrigo ficou duas horas conversando comigo, com a Tânia e com a Valéria, contatando gerente de banco, fazendo as contas e simplesmente constatando que não daria. Depois de muita conversa ele só via uma solução: eu teria que vender o apartamento onde morava e a casa da Henry Ford. Meu coração estava apertado.

Em casa conversei com o Pedro, meu filhão, que deu a maior força para eu conseguir ter a casa de trabalho em que sonhava. E assim viramos, mais uma vez, uma família de sem-teto.

No dia seguinte, coloquei o apartamento à venda: precisamos apenas de uma semana.

Nessa mesma sexta-feira, uma semana depois de ter visto o cartaz de "vende-se", dei um sinal simbólico na casa, que por sorte estava à venda há algum tempo.

Deu tudo certo, as vendas/compras aconteceram no prazo e, eu que achava que iria só dar um pintura, quase coloquei a casa abaixo e fiz outra. Foram muitas reformas, do telhado a cada detalhe, mas valeu a pena! Dia 29 de julho de 2011 inauguramos o Núcleo Angela Beatriz Varella, com a inestimável ajuda e competência do Fernando Bento e sua equipe, que ainda acelerou um mês o final da reforma. Foi uma correria e um estresse grandes.

Nessa época, fazia quimioterapia pela quarta vez na vida! Havia começado no final de 2010 e desta vez fui até meados de 2012.

Como diria o Rei, foram tantas emoções...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Carnaval

Ainda não dá para brincar o carnaval, mas a sorte é que já pulei muitos outros ao longo da vida!

Quando era adolescente, em Paquetá, Julia, Nirvanda, Bethinha e eu passávamos meses fazendo nossas fantasias - ai, meu Deus! Tão pudicas! Brincávamos de dia nos blocos de sujo pelas ruas e à noite no Iate Clube.

Enquanto driblávamos dona Maria Julia, que começava a nos procurar muito mais cedo do que desejávamos, a Célia e o Délio nos davam uma boa margem...

Nessa época eu tinha, então, tanta certeza que ficaria velhinha dentro de um baile de carnaval, que hoje acho até graça! A lembrança desse tempo pleno de adolescência, de sonhos e planos foi chegando de maneira tão sorrateira, que ainda hoje me fez sorrir.

Tudo tem sua hora, as vontades passam, os interesses mudam e milhões de coisas deixam de ter importância. A sorte é que há tempo para tudo, que a nossa visão do mundo se modifica, se adapta e poderemos sempre descobrir novas experiências enquanto vivermos.

Hoje, para mim, é tempo de descanso, de recolhimento e de apreciar os que chegaram há pouco, que têm muita energia e juventude e muito, muito ainda o que viver.

Bom carnaval!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Balanço geral - parte 1

Hoje faz exatamente um mês que minha irmã Denise e eu fomos à consulta com o Mauro Z., quando descobrimos que o câncer havia avançado e que recomeçaria a quimioterapia.

Fiquei fazendo um balanço desses últimos tempos e me impressionei com o tanto de coisas que ocorreram desde então. Parece até que já se passou muito, mas muito mais tempo apenas nesse começo de 2013. É só reler esse blog, que aliás, tem só 2 semanas!

Fatimadrinha, como Pedro a chama, conversando hoje de manhã comigo, disse que outro dia estava dando notícias minhas para alguém que não me vê há bastante tempo e ela mesma se impressionou com o que já fiz desde o primeiro diagnóstico - caraca! Fiz mesmo!

O melhor de tudo é saber o quanto o Pedro está bem e que talvez minha atitude não derrotista deve tê-lo influenciado.

Lá atrás, há 8 anos, foi o susto, mas quando as ações foram logo tomadas, como cirurgia, medicação e quimio, a vida voltou ao rumo.

Um ano depois, quando tive a metástase óssea e o prognóstico de, no máximo, um ano de vida, aí o bicho pegou. De todo esse tempo, foi a parte mais difícil de suportar. Na minha cabeça e no meu peito não cabiam mais nada. A finitude tomou conta de mim - e o desespero também.

Mauro Zukin, meu médico antenado e querido, falou de um medicamento novo mas que eu teria que entrar na justiça para obtê-lo.

Essa história é muito linda e deixo para contar em outro dia, mas saibam que sobrevivi graças à "corrente-da-Bia", criada para comprar o tal Tarceva, milagre em forma de comprimido.

No fim do ano, na véspera daquele natal de 2006, achei que iria enlouquecer. Precisava de algo que interrompesse meu pensamento e tinha que ser urgente!

Procurei psiquiatras do plano, por sorte uma topou trabalhar e me atendeu no dia 23 de dezembro - foi minha salvação emocional. Comecei a tomar um antidepressivo, novidade para mim, e a situação melhorou muito. Pelo menos ficou suportável porque antes eu sentia como de sobrevivesse às raias do insuportável. É muito ruim saber que se vai morrer logo - não recomendo a ninguém.

Para se ter uma ideia, entrei 2007 muito mais animada, sensação de bola para frente e em fevereiro resolvi estudar e começar a faculdade de Design de Interiores, assunto pelo qual sempre me interresei.

Foi a melhor coisa que fiz! Amava meus colegas, meus professores, as matérias e adorava ir para a "escolinha". Não perdia uma dia de aula!

Lá pelas tantas, quando vi que não morria mesmo, e que me sentia cada vez melhor, contei à turma sobre o prognóstico e que era para estar morrendo naquela época. Em seguida fizeram uma festa-surpresa chamada "Festa tô viva"! Foi uma delícia comemorar a vida!!!

Como estava super bem e me sentia ótima, organizei e consegui ministrar lá no Núcleo 6 cursos ao longo daquele ano. Eles bombaram! Deve ter corrido a notícias que eu estava para morrer e acho que os colegas se apressaram para se inscrever antes que fosse tarde demais... Deu até para juntar um dinheirinho, coisa que nunca havia feito antes.

O objetivo, então, era arranjar uma casa para morar, para não deixar que meu filho virasse um sem-teto, caso eu morresse. Lógico que nessa altura eu me sentia mais viva que sempre, mas... vai que...

Apesar de morar de aluguel, o mais duro foi a decisão de me desfazer de Cabo Frio, minha casinha tão amada, onde vivi muita coisa linda, onde fiz grandes amigos e onde Pedro viveu e aproveitou muito desde seus 6 anos.

E assim foi. Um belo dia, em novembro de 2007, decidi que estava na hora. Em vez de juntar o suficiente para comprar o apê que imaginava, inverti a ordem. Iria comprar um menor, com o dinheiro que tinha, no mesmo quarteirão onde já morávamos.

Naquele dia nos encontramos, Pedro e eu, às 17h, fomos perguntando a todos os porteiros se havia algum vago e no terceiro apartamento que conhecemos, nos entre olhamos ao entrar nele e antes da 7 da noite fechamos negócio. Não podia mais perder tempo. Tudo virava urgente.

[...]

Nossa! Não pensei que esse revival ainda fosse tão forte! Posso continuar amanhã?

...
FOTO: Festa tô viva!!!